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Quando jovem eu li muito a respeito de tudo. Estudei muitas obras a favor e contra esta multissecular \u201cassocia\u00e7\u00e3o de pedreiros\u201d. Descobri, ent\u00e3o, que tudo \u00e9 uma quest\u00e3o de \u00e9poca, ou de percep\u00e7\u00e3o, ou de opini\u00e3o pessoal. Nada encontrei que pudesse constituir conflito, nem com a religi\u00e3o crist\u00e3, nem com a minha op\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica hindu. N\u00e3o havia choque de egr\u00e9goras. Tanto que, desde as primeiras edi\u00e7\u00f5es deste livro, a Ma\u00e7onaria nunca foi citada entre as entidades ou propostas que representassem choque de egr\u00e9goras com a nossa filosofia.<\/p>\n<p>Debulhando a literatura, aprendi a admirar esta institui\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e filantr\u00f3pica constitu\u00edda por homens \u00edntegros e de boas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Havia recebido v\u00e1rios convites, ao longo da minha vida, para ingressar na irmandade. Mas eu n\u00e3o tinha recursos e precisei declinar um ap\u00f3s o outro. At\u00e9 que, um dia, surgiu a oportunidade na hora certa. Eu estava em plena campanha de retribuir ao mundo pelo apoio que tantas pessoas me proporcionaram, apoio esse que me levara ao sucesso profissional e ao reconhecimento. Era hora de retribuir e a Ma\u00e7onaria me permitiria faz\u00ea-lo, mediante suas obras sociais e filantr\u00f3picas.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, vamos entender o que \u00e9 essa confraria. Ela n\u00e3o tem nada a ver com religi\u00e3o. Muitos membros que eu conheci s\u00e3o cat\u00f3licos e alguns s\u00e3o padres. Tamb\u00e9m conheci v\u00e1rios protestantes, judeus e adeptos de outras religi\u00f5es. Sup\u00f4-la ate\u00edsta tamb\u00e9m n\u00e3o faz sentido, pois s\u00f3 s\u00e3o aceitos cidad\u00e3os de bem que declarem crer em Deus.<\/p>\n<p>A maior demonstra\u00e7\u00e3o de que a Ma\u00e7onaria \u00e9 uma coisa boa \u00e9 o fato de que foi perseguida por Hitler, por Franco, por Salazar e por praticamente todos os ditadores. Quando um d\u00e9spota sobe ao poder, a primeira medida que toma \u00e9 mandar prender e matar os ma\u00e7ons.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio que lhe \u00e9 atribu\u00eddo \u00e9 puro folclore. Os leigos dizem que \u00e9 uma sociedade secreta. Que tolice! Uma associa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 legalmente constitu\u00edda, com endere\u00e7o fixo, que paga impostos, cujas reuni\u00f5es s\u00e3o rigorosamente descritas em atas e estas registradas em cart\u00f3rio, jamais poderia ser considerada \u201csecreta\u201d.<\/p>\n<p>Mas, ent\u00e3o, como surgiu essa imagem, hoje inexata? Vou lhe explicar de uma forma simples. Muitos s\u00e9culos atr\u00e1s os pedreiros (de aprendizes a Mestres pedreiros) reuniam-se em guildas. Essas guildas eram as precursoras dos sindicatos. Tratava-se de associa\u00e7\u00f5es que agrupavam, em certos pa\u00edses da Europa, durante a Idade M\u00e9dia, indiv\u00edduos com interesses comuns e visava proporcionar assist\u00eancia e prote\u00e7\u00e3o a seus membros. Lembre-se de que n\u00e3o existia previd\u00eancia social. Nos nossos dias, essa prote\u00e7\u00e3o rec\u00edproca continua existindo entre os ma\u00e7ons. Se um for atacado ou prejudicado, milhares mobilizam-se para defender o Irm\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Ma\u00e7on<\/em>, traduzido do franc\u00eas, significa simplesmente <em>pedreiro<\/em>. Por extens\u00e3o, <em>construtor<\/em>. No passado, eles constru\u00edam castelos, fortalezas, muralhas, catedrais. Era necess\u00e1rio guardar seus segredos profissionais, porque se o inimigo conhecesse esses segredos poderia derrubar as muralhas que eles haviam projetado e, com isso, invadir as cidades.<\/p>\n<p>Esse era o motivo do segredo. Hoje, ele \u00e9 apenas simb\u00f3lico, uma reminisc\u00eancia. Ningu\u00e9m mais precisa esconder as t\u00e9cnicas de constru\u00e7\u00e3o em pedra, at\u00e9 mesmo porque n\u00e3o se erguem mais muralhas defensivas e tamb\u00e9m n\u00e3o se constr\u00f3i mais com pedra.<\/p>\n<p>Com o passar dos s\u00e9culos, os nobres, senhores dos castelos, come\u00e7aram a reivindicar inicia\u00e7\u00e3o no \u201csindicato\u201d, pois queriam conhecer os segredos daqueles que constru\u00edam suas fortalezas. Pouco a pouco, a Ma\u00e7onaria foi saindo das m\u00e3os dos construtores e passando \u00e0s dos nobres, poderosos e mais cultos. Atualmente, no Brasil, h\u00e1 muitos militares e magistrados. \u00c9 bem gracioso que aquele Juiz, Desembargador ou Ministro do Supremo Tribunal, a quem o nosso advogado, humilde e temerosamente, precisa chamar de Excel\u00eancia e de Merit\u00edssimo (\u201cSim, Excel\u00eancia\u201d, \u201cDesculpe, Merit\u00edssimo\u201d) em nossas reuni\u00f5es nos trata por Irm\u00e3o e nos cumprimenta com um beijo no rosto em intimidade fraternal.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Ser aceito \u00e9 um atestado de idoneidade<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 anos, quando fui indicado, a quantidade de documentos exigidos para acompanhar a proposta de filia\u00e7\u00e3o foi a maior que j\u00e1 precisei reunir. Durante meses, a vida do candidato \u00e9 escarafunchada mediante sindic\u00e2ncias de uma meticulosidade neurocir\u00fargica. A m\u00ednima m\u00e1cula de car\u00e1ter, ou m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o, ou a mais \u00ednfima desonestidade cometida no passado \u00e9 suficiente para que sua filia\u00e7\u00e3o seja recusada. Por isso, ter sido aceito foi para mim um dos maiores elogios que recebi na vida. Deu-me convic\u00e7\u00e3o sobre mim mesmo e a certeza de estar num ambiente em que todos s\u00e3o cidad\u00e3os ilibados.<\/p>\n<p>Por isso, se voc\u00ea n\u00e3o tiver um passado imaculadamente limpo, nem se proponha, porque n\u00e3o vai entrar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O valor de uma boa reputa\u00e7\u00e3o (Cap\u00edtulo de uma futura edi\u00e7\u00e3o do meu livro Quando \u00e9 Preciso Ser Forte) Por ser de fam\u00edlia cat\u00f3lica (e minha m\u00e3e era muito religiosa), eu imaginava que houvesse alguma incompatibilidade entre a nossa religi\u00e3o e a Ma\u00e7onaria. Quando jovem eu li muito a respeito de tudo. 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