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E s\u00f3 nos \u00faltimos s\u00e9culos, sentiu o gosto amargo das restri\u00e7\u00f5es impostas como tributo dessa aventura.<\/p>\n<p>Como animais, temos nossos instintos de luta, os quais compreendem dispositivos de incentivo e recompensa pela sensa\u00e7\u00e3o emocional e mesmo fisiol\u00f3gica de satisfa\u00e7\u00e3o cada vez que vencemos, quer pela luta, quer pela fuga (a fuga tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de vit\u00f3ria, j\u00e1 que o animal conseguiu vencer na corrida ou na estrat\u00e9gia de fuga; e seu predador foi derrotado, uma vez que n\u00e3o o conseguiu alcan\u00e7ar).<\/p>\n<p>Numa situa\u00e7\u00e3o de perigo, o instinto ordena lutar ou fugir. Quando acatamos essa necessidade psico-org\u00e2nica, o resultado na maior parte das vezes, \u00e9 a sa\u00fade e a satisfa\u00e7\u00e3o que se instala no est\u00e1gio posterior.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fugir nem lutar, desencadeiam-se estados de <em>stress<\/em> que conduzem a um leque de dist\u00farbios fisiol\u00f3gicos diversos. Isto tudo j\u00e1 foi exaustivamente estudado em laborat\u00f3rio e divulgado noutras obras.<\/p>\n<p>O que introduzimos na teoria da <em>S\u00edndrome da Felicidade<\/em> \u00e9 a descoberta de um fen\u00f4meno quase inverso ao que foi descrito e que os pesquisadores ainda n\u00e3o situaram a contento. Trata-se daquela circunst\u00e2ncia mais ou menos duradoura na qual n\u00e3o h\u00e1 necessidade de lutar nem de fugir porque est\u00e1 tudo bem. Bem demais, por tempo demais.<\/p>\n<p>Isso geralmente acontece com maior incid\u00eancia nos pa\u00edses de grande seguran\u00e7a social e numa propor\u00e7\u00e3o assustadora nas fam\u00edlias mais abastadas.<\/p>\n<p>O dispositivo de premia\u00e7\u00e3o com a sensa\u00e7\u00e3o de vit\u00f3ria, sua consequente euforia e auto-valoriza\u00e7\u00e3o por ter vencido na luta ou na fuga, tal dispositivo em algumas pessoas n\u00e3o \u00e9 acionado com a frequ\u00eancia necess\u00e1ria. Como consequ\u00eancia o animal sente falta \u2013 afinal \u00e9 um mecanismo que existe para ser usado, mas n\u00e3o o est\u00e1 sendo \u2013 e, ent\u00e3o, ele cai em depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Se quisermos considerar o lado fisiol\u00f3gico do fen\u00f4meno, podemos atribuir a depress\u00e3o \u00e0 falta de um horm\u00f4nio, ainda n\u00e3o descoberto cientificamente, que denominei <em>endoestimulina<\/em>, e que o organismo p\u00e1ra de segregar se n\u00e3o precisa lutar nem fugir por um per\u00edodo mais ou menos longo, vari\u00e1vel de uma pessoa para outra.<\/p>\n<p>O cachorro dom\u00e9stico entra em depress\u00e3o, mas n\u00e3o sabe por qu\u00ea. A dona do c\u00e3ozinho tamb\u00e9m n\u00e3o sabe a causa da sua pr\u00f3pria depress\u00e3o, j\u00e1 que o processo \u00e9 inconsciente, por\u00e9m, seu c\u00e9rebro, mais sofisticado do que o do c\u00e3o, racionaliza, isto \u00e9, elabora uma justificativa e atribui sua profunda insatisfa\u00e7\u00e3o a causas irreais.\u00a0N\u00e3o adiantar\u00e1 satisfazer uma suposta car\u00eancia, imaginariamente respons\u00e1vel pela insatisfa\u00e7\u00e3o ou depress\u00e3o: outra surgir\u00e1 em seguida para lhe ocupar o lugar e permitir a continuidade da falsa justificativa. O exemplo acima poderia ser com pessoas de ambos os sexos e todas as idades, mas, para ocorrer, \u00e9 preciso que a pessoa seja feliz. Feliz demais, por tempo demais.<\/p>\n<p>Resumindo: se est\u00e1 tudo bem, bem demais, por tempo demais, o indiv\u00edduo come\u00e7a a sentir infelicidade por falta do est\u00edmulo de <strong><em>perigo-luta-e-recompensa<\/em><\/strong>. Como isso ocorre em n\u00edvel do inconsciente, a pessoa tenta justificar sua infelicidade, atribuindo-a a coisas que n\u00e3o teriam o m\u00ednimo efeito depressivo em algu\u00e9m que estivesse lutando contra a adversidade.<\/p>\n<p>Exemplos:<\/p>\n<ul>\n<li>Na Escandin\u00e1via, onde a popula\u00e7\u00e3o conta com uma das melhores estruturas de conforto, paz social, seguran\u00e7a pessoal e estabilidade econ\u00f4mica, \u00e9 onde se verifica um dos maiores \u00edndices de depress\u00e3o e suic\u00eddio no mundo. Durante a guerra do Vietnam, onde as pessoas teriam boas raz\u00f5es para abdicar da vida, o \u00edndice de suic\u00eddios foi quase nulo.<\/li>\n<li>Os pa\u00edses mais civilizados que n\u00e3o teriam motivos para passeatas e agita\u00e7\u00f5es populares, pois nada h\u00e1 a reclamar dos seus governos, com alguma frequ\u00eancia realizam as mesmas manifesta\u00e7\u00f5es, mas agora com outros pretextos, tais como a ecologia, o pacifismo ou a defesa dos direitos humanos na Am\u00e9rica do Sul.<\/li>\n<li>O movimento em defesa dos direitos da mulher surgiu justamente no pa\u00eds onde as mulheres tinham mais direitos e eram mesmo mais poderosas que os homens: os Estados Unidos. L\u00e1, onde tradicionalmente se reconhece a ascend\u00eancia da esposa, justo l\u00e1, foi onde as mulheres reclamaram contra sua falta de liberdade e de igualdade. J\u00e1 na It\u00e1lia, Espanha, Portugal, Am\u00e9rica Latina, \u00c1sia, pa\u00edses mu\u00e7ulmanos e outros onde a mulher poderia ter motivos na \u00e9poca para reclamar, em nenhum deles ela se sentiu t\u00e3o violentamente prejudicada nos seus direitos quanto nos Estados Unidos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Assim, sempre que algum aluno ou aluna vinha chorar as m\u00e1goas, explicava-lhe nossa teoria da <em>S\u00edndrome da Felicidade<\/em> e conclu\u00eda dizendo:<\/p>\n<p>\u2013<em> Se voc\u00ea se sente infeliz sem raz\u00e3o, ou o atribui a essas raz\u00f5es t\u00e3o pequenas, talvez seja porque voc\u00ea \u00e9 feliz demais e n\u00e3o est\u00e1 conseguindo metabolizar sua felicidade. Algo como indigest\u00e3o por excesso de felicidade. Pense nisso e pare de reclamar da vida.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; A teoria da \u201cS\u00edndrome da Felicidade\u201d baseia-se no fato de que o ser humano \u00e9 um animal em transi\u00e7\u00e3o evolutiva e que, nos seus milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o, somente h\u00e1 uns m\u00edseros dez mil anos come\u00e7ou a construir aquilo que viria a ser a civiliza\u00e7\u00e3o. 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