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Mas sucumbiu \u00e0 histeria ignorante e exibicionista de uns quantos e \u00e0 cumplicidade doutros. Como consequ\u00eancia, fez-se este ano nova tentativa, bastante pior, e menos coerente. E o curioso \u00e9 que j\u00e1 h\u00e1 quem, sem pudor, critique no Acordo de 1990 defeitos que resultaram das ced\u00eancias \u00e0s cr\u00edticas de 1986. Receio mesmo que de novo se desencadeiem violentas reac\u00e7\u00f5es \u00e0s ligeir\u00edssimas modifica\u00e7\u00f5es agora propostas, e, por isso, julgo que talvez valha a pena chamar a aten\u00e7\u00e3o para um certo n\u00famero de factos. Pode ser que assim contribua para reduzir a emiss\u00e3o de disparates e para evitar que a discuss\u00e3o des\u00e7a abaixo de n\u00edveis aceit\u00e1veis.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\">Primeiro facto<\/span>. O objectivo do Acordo de 1986 n\u00e3o era modificar por modificar, mas apenas alterar o indispens\u00e1vel para conseguir a quase unifica\u00e7\u00e3o da ortografia nos pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa. Se n\u00e3o houvesse pronunciadas diferen\u00e7as entre as ortografias de Portugal e do Brasil, as reformas poderiam, ent\u00e3o sim, considerar-se escusadas.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\">Segundo facto<\/span>. Em quest\u00f5es de ortografia, \u00e9 falso que Portugal tenha uma hist\u00f3ria de ced\u00eancias ao Brasil. O contr\u00e1rio \u00e9 que \u00e9 verdadeiro.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\">Terceiro facto<\/span>. Mexer na ortografia n\u00e3o \u00e9 mexer na l\u00edngua. Todas as palavras continuar\u00e3o a ser pronunciadas (mal ou bem) como at\u00e9 aqui e a sintaxe continuar\u00e1, sem mudan\u00e7a, sujeita aos mesmos pontap\u00e9s de antes.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\">Quarto facto<\/span>. Mudar a ortografia n\u00e3o implica mudar instantaneamente todos os livros de estudo, nem mesmo os dicion\u00e1rios. Essa mudan\u00e7a ser\u00e1 gradual, feita ao longo de anos.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\">Quinto facto<\/span>. A evolu\u00e7\u00e3o da ortografia \u00e9 sempre feita de cima, por especialistas, e, quase sempre, por decreto ou portaria.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\">Sexto facto<\/span>. Tem havido, e continua a haver,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/ortograf.html#Reformas\">reformas ortogr\u00e1ficas em numerosos pa\u00edses<\/a>, incluindo Portugal, algumas delas muito mais radicais que as t\u00edmidas propostas que agora nos fazem.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\">S\u00e9timo facto<\/span>. A demagogia, \u00e0s vezes, \u00e9 castigada. O que se segue ajudar\u00e1 a documentar estes factos.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a name=\"OrtoPorBra\"><\/a><span style=\"color: #008080;\"><span style=\"font-size: x-small;\">Hist\u00f3ria da ortografia em Portugal e no Brasil<\/span><\/span><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da ortografia da l\u00edngua portuguesa pode dividir-se em tr\u00eas per\u00edodos:<\/p>\n<ul>\n<li><em>fon\u00e9tico<\/em>, at\u00e9 ao s\u00e9culo XVI;<\/li>\n<li><em>pseudo-etimol\u00f3gico<\/em>, desde o s\u00e9culo XVI at\u00e9 1911;<\/li>\n<li><em>moderno<\/em>, desde 1911 at\u00e9 hoje.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Quando a l\u00edngua portuguesa come\u00e7ou a ser escrita, quem escrevia procurava representar foneticamente os sons da fala. Esta representa\u00e7\u00e3o, no entanto, nunca foi satisfat\u00f3ria. Por um lado, n\u00e3o havia norma e, assim, por exemplo, o som\u00a0<strong>\/i\/ <\/strong>podia ser representado por\u00a0<strong>i<\/strong>, por\u00a0<strong>y<\/strong>, e at\u00e9 por\u00a0<strong>h<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">(1)<\/a>; a nasalidade por\u00a0<strong>m<\/strong>, por<strong> n<\/strong>, ou por\u00a0<strong>til<\/strong>, etc. Por outro lado, a ortografia conservou-se em certos casos antiquada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da pron\u00fancia das palavras, como em\u00a0<strong>leer <\/strong>(ler) e\u00a0<strong>teer<\/strong> (ter). Nos documentos mais antigos, de qualquer modo, o que se observa \u00e9 a procura de uma grafia fon\u00e9tica. Com o decorrer do tempo, esta simplicidade foi desaparecendo por causa da influ\u00eancia do Latim. Assim, come\u00e7aram a aparecer grafias como\u00a0<strong>fecto <\/strong>(feito),\u00a0<strong>regno<\/strong> (reino),\u00a0<strong>fructo<\/strong> (fruito), etc. Realmente, uma das caracter\u00edsticas do Renascimento foi a admira\u00e7\u00e3o pelos tempos cl\u00e1ssicos e, em particular, pelo Latim. Isso consolidou, por assim dizer, e levou ao extremo a influ\u00eancia daquela l\u00edngua na escrita do Portugu\u00eas. Daqui resultou o aparecimento de in\u00fameras consoantes duplas, o aparecimento dos grupos\u00a0<strong>ph<\/strong>,\u00a0<strong>ch<\/strong>,\u00a0<strong>th<\/strong>,\u00a0<strong>rh<\/strong>, que antes praticamente ningu\u00e9m usava. Por outro lado, j\u00e1 nesse tempo, tal como hoje, a ignor\u00e2ncia e o pretensiosismo se aliavam para produzir os maiores disparates, tais como, por exemplo,\u00a0<strong>lythographia<\/strong>,\u00a0<strong>typoia<\/strong>,\u00a0<strong>lyrio<\/strong>, etc.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">(2)(3)<\/a>. \u00c9 por esta raz\u00e3o que se chama pseudo-etimol\u00f3gico ao per\u00edodo em que esta tend\u00eancia se imp\u00f4s. Isto \u00e9, queria-se pretensiosamente fazer etimol\u00f3gica a ortografia, mas a ignor\u00e2ncia n\u00e3o deixava ir al\u00e9m da pseudo-etimologia. Al\u00e9m disso, segundo J. J. Nunes\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">(4)<\/a>, &#8220;por este processo [o da procura da grafia etimol\u00f3gica] recuavam-se bastantes s\u00e9culos, fazendo ressurgir o que era remoto, e punha-se de lado a hist\u00f3ria do nosso idioma&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Deve-se dizer que cedo come\u00e7ou a haver reac\u00e7\u00f5es simplificativas. Por exemplo, Duarte Nunes de Le\u00e3o, um dos primeiros gram\u00e1ticos portugueses, reprova a pseudo-etimologia nascente em &#8220;<em>Ortographia da lingoa portuguesa<\/em>&#8220;, livro de 1576. Outro gram\u00e1- tico que se op\u00f4s a esta ortografia complicada foi \u00c1lvaro Ferreira de Vera, no seu livro &#8220;<em>Ortographia ou arte para escrever certo na lingua portuguesa<\/em>&#8221; (1633)\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">(5)<\/a>. Tamb\u00e9m D. Francisco Manuel de Melo (s\u00e9culo XVII) usou, pelo menos na sua obra &#8220;<em>Segundas tr\u00eas musas do Melodino<\/em>&#8220;, uma ortografia simplificada em que quase n\u00e3o havia consoantes dobradas, o\u00a0<strong>ph<\/strong> era substitu\u00eddo por\u00a0<strong>f<\/strong>, e o\u00a0<strong>ch<\/strong> com som<strong> \/k\/ <\/strong>era substitu\u00eddo por\u00a0<strong>qu<\/strong> (<strong>pharmacia<\/strong> -&gt;<strong> farmacia<\/strong>,\u00a0<strong>Achilles<\/strong> -&gt;\u00a0<strong>Aquiles<\/strong>)\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">(3)<\/a>.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo seguinte, o XVIII, o c\u00e9lebre Lu\u00eds Ant\u00f3nio Verney apresentou tamb\u00e9m a sua proposta de ortografia simplificada e, mais do que isso, publicou nessa ortografia a sua grande obra &#8220;<em>O verdadeiro m\u00e9todo de estudar<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>O que \u00e9 certo, por\u00e9m, \u00e9 que, na quase totalidade dos escritos, principalmente a partir da publica\u00e7\u00e3o em 1734 da &#8220;<em>Ortographia ou arte de escrever e pronunciar com acerto a lingua portugueza<\/em>&#8221; de Jo\u00e3o de Morais Madureyra Feyj\u00f3, se procurava a grafia mais complicada. Note-se, no entanto, que, apesar de tudo, o n\u00famero de acentos era bastante restrito e empregue em casos e para fins algo diferentes dos actuais.<\/p>\n<p>No princ\u00edpio do s\u00e9culo XIX, tamb\u00e9m Garrett defendia a simplifica\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica e criticava a aus\u00eancia de norma. Nesse mesmo s\u00e9culo proliferaram os pretendentes a reformadores da ortografia. Al\u00e9m de Garrett, pode-se mencionar, por exemplo, Castilho, como um dos mais conhecidos.<\/p>\n<p>No decorrer do s\u00e9culo XIX, come\u00e7ou a compreender-se a falta de justifica\u00e7\u00e3o de muitas das grafias complicadas que ent\u00e3o se usavam, mas, por outro lado, caiu-se no extremo de, mesmo aqueles sem quaisquer habilita\u00e7\u00f5es para tal, desatarem a simplificar disparatadamente. O resultado foi que, no fim do s\u00e9culo XIX, a desordem ortogr\u00e1fica era total. Cada um escrevia como lhe parecia melhor.<\/p>\n<p>Assim, em 1911, o Governo nomeou uma comiss\u00e3o para estabelecer a ortografia a usar nas publica\u00e7\u00f5es oficiais. Desta comiss\u00e3o fazia parte o insigne foneticista Gon\u00e7alves Viana, que j\u00e1 em 1907 apresentara um projecto de ortografia simplificada. O trabalho da comiss\u00e3o consistiu praticamente em adoptar o que propunha Gon\u00e7alves Viana e a nova ortografia foi oficializada por portaria de 1 de Setembro de 1911. Esta reforma da ortografia, a primeira oficial em Portugal, foi profunda e modificou completamente o aspecto da l\u00edngua escrita, aproximando-o muito do actual. Foi, pode dizer-se, uma mudan\u00e7a verdadeiramente radical e feita sem qualquer acordo com o Brasil. Ao fazer desaparecer muitas consoantes dobradas, e os grupos\u00a0<strong>ph<\/strong>,\u00a0<strong>th<\/strong>,\u00a0<strong>rh<\/strong>, etc., a reforma, afinal, fazia desaparecer os exageros do per\u00edodo pseudo-etimol\u00f3gico e promovia um &#8220;regresso&#8221; ao per\u00edodo fon\u00e9tico. Por isso, \u00e9 que, a prop\u00f3sito das muitas reac\u00e7\u00f5es adversas que houve na altura, escrevia\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">J.J. Nunes (6)<\/a>, em 1918: &#8220;Pena \u00e9 que a ortografia nova, que, em rigor, \u00e9 velha, n\u00e3o seja compreendida por todos, ou antes, que se n\u00e3o queira ver a sua justeza, acabando-se de vez com os desconchavos que ainda perduram, quase sempre resultantes da ignor\u00e2ncia&#8230;&#8221;. Como estas palavras continuam actuais !<\/p>\n<p>O essencial da reforma ortogr\u00e1fica de 1911 foi acabar com o despotismo da etimologia, aproximando a ortografia oficial de uma escrita fon\u00e9tica. Aproximando, apenas, note-se, dado que, apesar de tudo, se fizeram vastas concess\u00f5es a h\u00e1bitos anteriores, como era o caso de manter in\u00fameras consoantes mudas, com um ou outro pretexto (homem, directo, sci\u00eancia, etc.).<\/p>\n<p>Um ponto em que a reforma foi incoerente e em que se afastou da tradi\u00e7\u00e3o dos primeiros tempos do Portugu\u00eas escrito foi a introdu\u00e7\u00e3o profunda de acentos. Em particular, passaram a ser acentuadas todas as palavras esdr\u00faxulas, o que n\u00e3o acontecia antes.<\/p>\n<p>A seguir \u00e0 reforma de 1911, houve v\u00e1rios ajustamentos efectuados por portarias de 19.11.1920, 23.09.1929, e 27.05.1931. A grande reforma seguinte foi a resultante do acordo ortogr\u00e1fico Portugal-Brasil de 1945, a qual, ligeiramente alterada por um decreto de 1971, deu origem \u00e0 ortografia oficial que at\u00e9 agora se usou em Portugal. Note-se, de passagem, que o acordo de 1945 anulou algumas modifica\u00e7\u00f5es introduzidas em 1911 e 1931.<\/p>\n<p>Vejamos o que entretanto se passava no Brasil. No s\u00e9culo XIX, a ortografia no Brasil estava no mesmo estado que em Portugal. Pode-se dizer que havia unidade&#8230; no caos.<\/p>\n<p>Em 1907, a Academia Brasileira de Letras tivera em estudo um projecto de reforma an\u00e1logo ao de Gon\u00e7alves Viana, que, como vimos, levou \u00e0 reforma portuguesa de 1911. Neste projecto, embora baseado no do foneticista portugu\u00eas, colaboraram v\u00e1rios brasileiros ilustres, como Euclides da Cunha, Rui Barbosa e outros\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">(7)<\/a>. Isto mostra que, em ambos os pa\u00edses, h\u00e1 muito se sentia a necessidade de modificar a ortografia. O mesmo, ali\u00e1s, se passava noutros pa\u00edses e tinham sido e viriam a ser feitas reformas em v\u00e1rios deles, como se ver\u00e1 mais \u00e0 frente.<\/p>\n<p>O projecto da Academia Brasileira de Letras de 1907 acabou por n\u00e3o ir por diante e, por outro lado, Portugal cometeu o absurdo erro de avan\u00e7ar sozinho para a reforma. Assim, e apesar de a reforma portuguesa ser defendida sem altera\u00e7\u00f5es, para uso no Brasil, por fil\u00f3logos brasileiros do calibre de Antenor Nascentes e M\u00e1rio Barreto, o certo \u00e9 que, durante alguns anos, ficaram os dois pa\u00edses com ortografias completamente diferentes: Portugal com uma ortografia moderna, o Brasil com a velha ortografia pseudo-etimol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Foi em 1924 que as duas Academias, a Brasileira de Letras e a das Ci\u00eancias de Portugal, resolveram procurar uma ortografia comum. Claro que, para isso, o Brasil teria que se aproximar de Portugal, que, na altura, caminhava na frente. Houve em 1931 um acordo preliminar entre as duas Academias, em que se adoptava praticamente a ortografia portuguesa. Assim se iniciou o processo de converg\u00eancia das ortografias dos dois pa\u00edses com um reconhecimento quase total, por parte do Brasil, da superioridade da ortografia portuguesa. Contudo, os vocabul\u00e1rios que se publicaram, em 1940 (Academia das Ci\u00eancias de Portugal) e 1943 (Academia Brasileira de Letras), continham ainda algumas diverg\u00eancias. Por isso, houve, ainda em 1943, em Lisboa, uma Conven\u00e7\u00e3o Ortogr\u00e1fica, que deu origem ao Acordo Ortogr\u00e1fico de 1945. Este acordo tornou-se lei em Portugal pelo Decreto 35 228 de 08.12.45, mas no Brasil n\u00e3o foi ratificado pelo Congresso; e, por isso, os Brasileiros continuaram a regular-se pela ortografia do Vocabul\u00e1rio de 1943.<\/p>\n<p>Em 1971, novo acordo entre Portugal e o Brasil aproximou um pouco mais a ortografia do Brasil da de Portugal. Tratou-se de ced\u00eancia brasileira, mais uma vez. O acordo teve a sorte de ser oficializado sem burburinho. Note-se aqui que, do ponto de vista absoluto, ambas as grafias eram nesta altura perfeitamente razo\u00e1veis e sua \u00fanica desvantagem era apresentarem ainda algumas diferen\u00e7as. N\u00e3o fosse isso, seria, de facto, in\u00fatil &#8220;mexer&#8221; mais.<\/p>\n<p>Em 1973, recome\u00e7aram as negocia\u00e7\u00f5es e, em 1975, as duas Academias mais uma vez chegaram a acordo, o qual &#8220;n\u00e3o foi contudo transformado em lei, pois circunst\u00e2ncias adversas de v\u00e1ria ordem n\u00e3o permitiram uma considera\u00e7\u00e3o p\u00fablica da mat\u00e9ria&#8221;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">(8)<\/a>.<\/p>\n<p>Em 1986, o Presidente Jos\u00e9 Sarney tentou resolver o assunto, que h\u00e1 longo tempo se arrastava, e promoveu o encontro dos sete pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa no Rio de Janeiro. Deste encontro, mais uma vez sa\u00edu um acordo ortogr\u00e1fico e mais uma vez o acordo n\u00e3o foi por diante, devido a um surpreendente alarido que se levantou em Portugal. Este alarido, longe de ser resultado de defeitos do acordo, deveu-se sobretudo a uma confrangedora ignor\u00e2ncia do assunto por parte dos pouco ponderados advers\u00e1rios da uni\u00e3o ortogr\u00e1fica. Mas a verdade \u00e9 que o acordo foi suspenso.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que se concluiu este ano novo acordo, dito &#8220;mais moderado&#8221;, mas na verdade mais incoerente, e exposto, este sim, a cr\u00edticas com fundamento. Os respons\u00e1veis portugueses pelo Acordo de 1986, que garantia uma unifica\u00e7\u00e3o quase total da ortografia da l\u00edngua, cederam aos auto-proclamados donos da Cultura Nacional e, agora, em 1990, produziram um acordo imperfeito, que n\u00e3o unifica, cheio de grafias duplas, defeitos estes que s\u00e3o deslealmente aproveitados pelos detractores que os causaram. \u00c9 o castigo da demagogia. Enfim, se encarado como transit\u00f3rio, como mais uma pequena dose de mudan\u00e7a sem dor para n\u00e3o assarapantar o\u00a0<em>profanum vulgum<\/em>, este acordozito \u00e9 um passo na direc\u00e7\u00e3o certa. Para mim, no entanto, o m\u00e9todo correcto seria fazer a unifica\u00e7\u00e3o total de uma s\u00f3 vez e liquidar definitivamente o problema.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a name=\"Reformas\"><\/a><span style=\"color: #008080;\"><span style=\"font-size: x-small;\">Reformas e acordos ortogr\u00e1ficos noutras l\u00ednguas<\/span><\/span><\/p>\n<p>Contra o que tem sido afirmado, n\u00e3o t\u00eam faltado reformas ortogr\u00e1ficas na historia das principais l\u00ednguas civilizadas. Percorramos algumas dessas l\u00ednguas.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800040;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Espanhol<\/span><\/span>. &#8220;A ortografia do Espanhol medieval \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o fidedigna da l\u00edngua, tal como ela era falada nos c\u00edrculos culturais de Toledo por volta de 1275. Essa representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica come\u00e7ou a ser defeituosa pelos fins do s\u00e9culo XV&#8230;[O gram\u00e1tico] Nebrija [s\u00e9culos XV e XVI] reafirmou o princ\u00edpio fon\u00e9tico de que a l\u00edngua se deve escrever como se pronuncia. Por esta \u00e9poca, os humanistas tinham come\u00e7ado a insistir na etimologia&#8230; Nos s\u00e9culos XVI e XVII, tendo-se produzido mudan\u00e7as consider\u00e1veis de pron\u00fancia, a ortografia espanhola apresentava diversas anomalias, o que levou a Academia da Lingua a come\u00e7ar a adoptar um controle oficial da l\u00edngua no s\u00e9culo XVIII&#8221;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">(10)<\/a>. Sucessivas reformas, a \u00faltima das quais em 1815, acabaram por conduzir \u00e0 ortografia actual, que \u00e9 praticamente fon\u00e9tica. Os pa\u00edses de l\u00edngua espanhola usam, de um modo geral, a mesma ortografia, mas a uni\u00e3o ortogr\u00e1fica est\u00e1 longe de se poder considerar definitivamente resolvida. Tem havido acordos, princi- palmente com a Argentina, que participa activamente nas discuss\u00f5es, e o Chile, que de 1822 at\u00e9 1938 j\u00e1 apresentou 18 propostas de reforma ortogr\u00e1fica. Por seu lado, a Espanha, preocupada com a manuten\u00e7\u00e3o da unidade da l\u00edngua espanhola no mundo, vai retardando as decis\u00f5es. Em v\u00e1rios casos, a Espanha tem aceitado propostas de uma das suas antigas col\u00f3nias, como foi o caso em 1952, em que certas toler\u00e2ncias propostas pela Argentina foram adoptadas pela Espanha e outros pa\u00edses de l\u00edngua espanhola\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">(11)<\/a>.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800040;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Italiano<\/span><\/span>. O italiano moderno (e a correspondente ortografia) s\u00e3o obra, algo artificial, por assim dizer, de Alessandro Manzoni (1785-1873), que escreveu, na forma que recomendava e que vingou, o c\u00e9lebre romance\u00a0<em>I promessi sposi<\/em>, considerado uma das mais not\u00e1veis obras da literatura italiana. Com a l\u00edngua italiana praticamente concentrada num s\u00f3 pa\u00eds, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de acordos internacionais.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800040;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Alem\u00e3o<\/span><\/span>. A escrita actual, baseada em Lutero, com a sua c\u00e9lebre tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia, em Freyer (1722) e Adelung (1788), \u00e9 o resultado de acordos oficiais de 1876, 1901, 1920, 1954, etc., entre os pa\u00edses de l\u00edngua alem\u00e3. Apesar destes acordos, tamb\u00e9m nada ainda \u00e9 definitivo. As reuni\u00f5es internacionais t\u00eam continuado: 1958 (Wiesbaden Empfehlungen), 1973 (Wiener Empfehlungen), 1978, 1980. Na \u00faltima reuni\u00e3o internacional de que tenho conhecimento, em 1986, em Viena, participaram a B\u00e9lgica, a RFA, o Tirol italiano, o Liechtenstein, a \u00c1ustria, a Su\u00ed\u00e7a, a RDA, o Luxemburgo e a Als\u00e1cia. As discuss\u00f5es t\u00eam sido agitadas e ainda n\u00e3o se alcan\u00e7ou a estabilidade. Como exemplo de pontos em discuss\u00e3o, anotem-se as numerosas e complicadas regras do uso da v\u00edrgula, as mai\u00fasculas dos substantivos, a elimina\u00e7\u00e3o de consoantes mudas e de vogais duplas, etc. Ficou prevista para este ano nova reuni\u00e3o. [<strong>Nota em 1996<\/strong>: Em Julho de 1996, firmou-se em Viena um acordo entre os pa\u00edses de l\u00edngua alem\u00e3 sobre as novas regras de ortografia, as quais devem entrar em vigor em 1 de Agosto de 1998.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.wuerzburg.de\/spec\/rechtschreibreform\/ortho_98.html\">Consultar p\u00e1gina de actualiza\u00e7\u00e3o sobre ortografia alem\u00e3<\/a>].<\/p>\n<p><span style=\"color: #800040;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Holand\u00eas<\/span><\/span>. Na Holanda, por volta de 1900, a ortografia sofreu uma reforma radical, mexendo mesmo com a pr\u00f3pria gram\u00e1tica. At\u00e9 nomes de localidades foram revistos. As discuss\u00f5es sobre ortografia, que, tal como entre n\u00f3s, t\u00eam por vezes sido acaloradas, nunca pararam. Os Flamengos, da B\u00e9lgica, cuja l\u00edngua \u00e9 o Holand\u00eas, adoptaram a ortografia da Holanda, mas as reuni\u00f5es e as propostas de reforma ainda n\u00e3o terminaram.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800040;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Russo<\/span><\/span>. A Academia das Ci\u00eancias Russa preparou em 1912 um projecto de reforma da ortografia que acabou por ser adoptado em 1917, a seguir \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. Esta reforma envolveu simplifica\u00e7\u00f5es profundas, tendo sido eliminadas v\u00e1rias letras do alfabeto. Desde 1939, ano em que foi nomeada uma comiss\u00e3o de linguistas para o estudo de certos problemas da l\u00edngua, que s\u00e3o regularmente actualizados os prontu\u00e1rios ortogr\u00e1ficos. Felizmente, tal como para o Italiano, n\u00e3o h\u00e1 problemas internacionais.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800040;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Turco<\/span><\/span>. O caso mais espantoso de reforma ortogr\u00e1fica parece ser o da Turquia. A\u00ed, o presidente Mustaf\u00e1 Kemal Atat\u00fcrk, em 1928, aboliu pura e simplesmente o alfabeto at\u00e9 ent\u00e3o usado, o \u00e1rabe, e substituiu-o pelo latino. Todas as pessoas, apesar dos protestos dos reaccion\u00e1rios, tiveram que reaprender a ler. Esta catacl\u00edsmica reforma ortogr\u00e1fica vingou e, para as novas gera\u00e7\u00f5es, o alfabeto \u00e1rabe \u00e9 t\u00e3o estranho como para a popula\u00e7\u00e3o europeia em geral.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800040;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Chin\u00eas<\/span><\/span>. Depois da \u00faltima guerra, o Governo da China Popular simplificou um grande n\u00famero dos caracteres que se usam para escrever as l\u00ednguas da China, no que n\u00e3o foi seguido, nem pelas autoridades da Formosa, nem pela maioria das comunidades de chineses do estrangeiro. Assim, mant\u00eam-se at\u00e9 hoje nas duas regi\u00f5es diferen\u00e7as ortogr\u00e1ficas significativas. O pr\u00f3prio nome do pa\u00eds se escreve de modo diferente nas duas ortografias.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800040;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Japon\u00eas. <\/span><\/span><span style=\"color: #0000a0;\">Os caracteres chineses simplificados foram tamb\u00e9m adoptados no Jap\u00e3o, a partir de 1947\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">(12)<\/a>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800040;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Grego<\/span><\/span>. Em 1986, o Grego libertou-se finalmente do pesado sistema de acentos que por desgra\u00e7a lhe ca\u00edra em cima nos tempos da civiliza\u00e7\u00e3o helen\u00edstica. Uma pesada heran\u00e7a de Arist\u00f3fanes de Biz\u00e2ncio, bibliotec\u00e1rio de Alexandria e fil\u00f3logo do s\u00e9culo II AC.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800040;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Franc\u00eas<\/span><\/span>. A ortografia do Franc\u00eas tem variado ao longo dos s\u00e9culos, quase sempre por saltos bruscos. No s\u00e9culo XVI, a escola de Ronsard levou a grande maioria dos escritores a adoptar uma ortografia reformada, despojada das numerosas letras mudas in\u00fateis. Foi nesse s\u00e9culo, no entanto, que Francisco I decretou a c\u00e9lebre regra da concord\u00e2ncia do partic\u00edpio, por imita\u00e7\u00e3o do Italiano (regra, ali\u00e1s, cuja elimina\u00e7\u00e3o est\u00e1 na mira dos reformadores actuais). A primeira edi\u00e7\u00e3o do dicion\u00e1rio da Academia, no s\u00e9culo XVII, sob a influ\u00eancia de Corneille, introduziu novas reformas. No s\u00e9culo seguinte, a edi\u00e7\u00e3o de 1740 do mesmo dicion\u00e1rio dava ortografia nova a nada menos de 2000 palavras das 3000 que o compunham. A ortografia actual do Franc\u00eas fixou-se na forma actual por volta de 1830. A norma foi fixada na 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Dicion\u00e1rio da Academia, de 1836. Desde o princ\u00edpio deste s\u00e9culo, por\u00e9m, j\u00e1 em tr\u00eas ocasi\u00f5es se iniciaram movimentos de reformas ortogr\u00e1ficas: em 1901, em 1965 e em 1988. Em 1901, a reforma foi patrocinada por escritores como Anatole France, Georges Leygues e Ferdinand Brunot e teve um apoio de tal forma amplo que o Minist\u00e9rio da Instru\u00e7\u00e3o chegou a publicar uma portaria com as mudan\u00e7as propostas. No entanto, esta portaria acabou por n\u00e3o ser aplicada, devido \u00e0 campanha contra a reforma feita pela imprensa. Em 1965, uma comiss\u00e3o presidida por M. Beslais, ex-Director do Ensino Prim\u00e1rio, apresentou um relat\u00f3rio com nova proposta de reforma. Nela, defendiam-se transforma\u00e7\u00f5es do tipo<\/p>\n<ul><strong>th\u00e9atre <\/strong>-&gt;<strong> t\u00e9atre<\/strong><\/p>\n<p><strong>pharmacie <\/strong>-&gt;<strong> farmacie<\/strong><\/p>\n<p>etc.<\/ul>\n<p>Este relat\u00f3rio n\u00e3o teve seguimento, embora em 1975 uma nova portaria determinasse mudan\u00e7as ortogr\u00e1ficas menos ambiciosas. Esta portaria teve a sorte da do princ\u00edpio do s\u00e9culo, isto \u00e9, o total esquecimento. Apesar de aparentemente continuarem em vigor, ningu\u00e9m as cumpre. O debate recome\u00e7ou em fins de 1988, desencadeado por uma sondagem na revista do Sindicato Nacional dos Professores e foi animado por numerosas tomadas de posi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o de artigos e livros. Dentre as tomadas de posi\u00e7\u00e3o mais relevantes note-se a do chamado Manifesto dos dez linguistas, publicado em &#8220;Le Monde&#8221; de 07\/02\/1989, que defendia a necessidade de uma reforma, e a publica\u00e7\u00e3o em fins de 1989 de tr\u00eas livros sobre o assunto (&#8220;<em>Le livre de l&#8217;orthographe<\/em>&#8220;, de Bernard Pivot,<a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Referencias\">&#8220;<em>Les d\u00e9lires de l&#8217;orthographe<\/em>&#8220;, de Nina Catach<\/a>, e &#8220;<em>Que vive l&#8217;ortografe<\/em>!&#8221;, de Jacques Leconte e Philippe Cibois). O assunto foi pelo Governo julgado suficientemente importante para justificar a nomea\u00e7\u00e3o, por decreto de 02.06.89, do Conseil sup\u00e9rieur de la langue fran\u00e7aise (CSLF), com o objectivo de &#8220;rectificar&#8221; a ortografia. Em fins de 1989, o Governo encarregou o CLSF de se pronunciar sobre um certo n\u00famero de pontos concretos. Ao fim de uma dezena de reuni\u00f5es, conseguiu-se um acordo, de que participaram a B\u00e9lgica, a Su\u00ed\u00e7a e o Canad\u00e1, acordo que foi aprovado pela Academia Francesa. Em 19.06.90, foi apresentado o relat\u00f3rio do CSLF, a que se seguiram ainda negocia\u00e7\u00f5es informais entre a Academia e os servi\u00e7os do Primeiro Ministro. Finalmente, em Outubro passado, o CSLF recebeu e aprovou a vers\u00e3o definitiva da reforma. Pretende-se que seja publicada oficialmente ainda antes do Natal e que entre em vigor nas escolas a partir do Outono de 1991, embora haja a inten\u00e7\u00e3o de tolerar a antiga ortografia por mais alguns anos. Tudo leva a crer que, desta vez, a reforma ter\u00e1 destino diferente das que a antecederam neste s\u00e9culo.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a name=\"OrtoIdeal\"><\/a><span style=\"color: #008080;\"><span style=\"font-size: x-small;\">O que deve ser a ortografia ideal ?<\/span><\/span><\/p>\n<p>H\u00e1 a ideia generalizada de que uma ortografia \u00e9 tanto mais perfeita quanto mais fon\u00e9tica for. Ora isto s\u00f3 \u00e9 verdade at\u00e9 certo ponto. A\u00a0<em>ortografia fon\u00e9tica<\/em> <a href=\"http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/mmc\/Ortograf.html#Nota\">(*)<\/a> tem vantagens e inconvenientes e, para cada l\u00edngua, \u00e9 preciso fazer a pondera\u00e7\u00e3o dessas vantagens e inconvenientes.<\/p>\n<p>Se se trata de uma l\u00edngua restrita a poucos falantes e a uma regi\u00e3o relativamente pequena e com boas comunica\u00e7\u00f5es, essa l\u00edngua ter\u00e1 poucas variantes (ou marcas t\u00f3picas, como se diz). Ser\u00e1 falada de igual modo por todos. Ent\u00e3o, a escrita fon\u00e9tica \u00e9 o que mais conv\u00e9m, porque \u00e9 l\u00f3gica e permite, mais do que qualquer outra, ler e escrever sem erros, mesmo aos menos cultos e aos estrangeiros.<\/p>\n<p>Se, por\u00e9m, se trata de uma l\u00edngua mundial como o Portugu\u00eas, com um grande n\u00famero de falantes e abrangendo enormes territ\u00f3rios com algumas dificuldades de contactos, j\u00e1 o caso muda de figura. De facto, ent\u00e3o, h\u00e1 certamente variantes na linguagem falada, h\u00e1 in\u00fameros sotaques regionais, h\u00e1, enfim, as chamadas marcas t\u00f3picas. E, neste caso, se se vai para a escrita fon\u00e9tica, que variante, que sotaque, se h\u00e1-de representar? \u00c9 que, uma vez escolhida essa variante, a escrita ser\u00e1 fon\u00e9tica para ela, mas n\u00e3o o ser\u00e1 para as outras.<\/p>\n<p>Assim, no caso do Portugu\u00eas, para escrever foneticamente, por exemplo, o n\u00famero 20, poderiam eventualmente usar-se as escritas\u00a0<strong>bint<\/strong>,\u00a0<strong>vint<\/strong>,\u00a0<strong>vintchi<\/strong>, conforme fosse escolhida a pron\u00fancia do Minho, de Lisboa, ou do Rio. Isto mostra que, para uma grande l\u00edngua, a escrita totalmente fon\u00e9tica \u00e9 invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Deve-se, ent\u00e3o, ir para uma escrita ideogr\u00e1fica, como a chinesa, ou como a que usa algarismos? No caso dos n\u00fameros, realmente, a escrita com algarismos \u00e9 totalmente ideogr\u00e1fica. 20 \u00e9 entendido por todos os falantes de Portugu\u00eas (e de outras l\u00ednguas), lendo cada um a palavra correspondente com a sua pron\u00fancia pr\u00f3pria. Esta \u00e9 uma vantagem da escrita ideogr\u00e1fica; ela \u00e9 &#8220;suprat\u00f3pica&#8221;. Usar tal escrita para a linguagem corrente, por\u00e9m, tem enormes desvantagens, visto que \u00e9 colossal o n\u00famero de s\u00edmbolos necess\u00e1rios (caso do Chin\u00eas).<\/p>\n<p>Por isso, o que h\u00e1 a fazer, para uma l\u00edngua como o Portugu\u00eas, \u00e9 usar um meio termo. Devem representar-se as palavras de um modo, n\u00e3o completamente fon\u00e9tico, mas aproximadamente fon\u00e9tico. Cada palavra ter\u00e1, ent\u00e3o, al\u00e9m das suas componentes fon\u00e9ticas (letras e grupos de letras), que correspondem a sons que podem ser diferentes de regi\u00e3o para regi\u00e3o, uma individualidade visual, um aspecto, pr\u00f3prios, que ter\u00e3o de ser reconhecidos por todos. Isso n\u00e3o impedir\u00e1 que cada palavra escrita, reconhecida imediatamente por todos os falantes da l\u00edngua (os n\u00e3o analfabetos, evidentemente), seja pronunciada de modo diferente em cada regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Aceites estes princ\u00edpios, compreende-se que, em face das grafias do g\u00e9nero de Ant\u00f4nio (Brasil) e Ant\u00f3nio (Portugal), os negociadores do Acordo Ortogr\u00e1fico de 1986 se tivessem decidido pela grafia unificadora Antonio, como, ali\u00e1s, se escrevia antes de 1911. Mas n\u00e3o adiantou. As emo\u00e7\u00f5es bo\u00e7ais levaram a melhor.<\/p>\n<p><a name=\"Nota\"><\/a>___________________________________________________________________________________________<\/p>\n<p>(*) Por\u00a0<em>ortografia fon\u00e9tica <\/em>entende-se uma ortografia em que a cada som corresponda uma letra ou grupo de letras \u00fanicos e a cada letra ou grupo de letras um som \u00fanico, e, ainda, em que, pelo menos no caso das l\u00ednguas indo-europeias, seja assinalada de algum modo a s\u00edlaba t\u00f3nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O presente texto encontra-se no link\u00a0<a href=\"http:\/\/\">http:\/\/www.dha.lnec.pt\/npe\/portugues\/paginas_pessoais\/MMC\/Ortograf.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o O Acordo Ortogr\u00e1fico de 1986 era um bom acordo. Apesar de moderado, era um bom passo em frente no caminho da reunifica\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica com o Brasil. 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