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Leciono Y\u00f4ga desde os 16. Pratico Y\u00f4ga h\u00e1 5000 anos. \u201cNestas roupagens e nestas paragens\u201d n\u00e3o sei ao certo quando comecei. Foi gradual. Um dia, um mudr\u00e1. Noutro dia, um pr\u00e1n\u00e1y\u00e1ma. Noutro mais, um dhy\u00e1na. Mais tarde, assisti \u00e0 entrevista de um desportista que praticava coisas semelhantes \u00e0s minhas e declarou que aquilo era Y\u00f4ga. Certa vez, caiu-me nas m\u00e3os um livro de R\u00e1ja Y\u00f4ga, de Viv\u00eak\u00e1nanda. Nele, encontrei uma s\u00e9rie de conceitos e t\u00e9cnicas que vinha desenvolvendo sozinho. Suspirei aliviado: \u201cEnt\u00e3o eu n\u00e3o era maluco! Havia mais algu\u00e9m que pensava como eu!\u201d Com o livro, descobri que aquilo j\u00e1 existia e tinha nomes em s\u00e2nscrito.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Em pouco tempo devorei centenas de livros. N\u00e3o apenas os de Y\u00f4ga, pois esses citavam outros e eu recorria tamb\u00e9m a eles como fonte de apoio e conhecimento. Logo percebi que a maioria era puro engodo ou devaneio de seus autores. Contudo, no meio havia obras s\u00e9rias e respaldei-me nessas. Hoje, aos 18, j\u00e1 li toda a bibliografia dispon\u00edvel e pratiquei tudo o que podia, com uma disciplina espartana. Sou estudante, vivo com meus pais, portanto, n\u00e3o preciso trabalhar para viver. Dedico tempo integral ao Y\u00f4ga, inclusive o per\u00edodo escolar, pois passo as aulas de F\u00edsica, Qu\u00edmica, Matem\u00e1tica, Latim, a estudar os livros de Y\u00f4ga. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Para que meus amigos n\u00e3o interferissem convidando-me a passeios, festas e namoros, pedi aos meus pais que me matriculassem no col\u00e9gio interno, assim poderia praticar mais. Tive um grande progresso no desenvolvimento da musculatura e no incremento da sa\u00fade. Consegui um avan\u00e7o razo\u00e1vel quanto \u00e0s paranormalidades e estados de consci\u00eancia. Mas estaria no caminho certo?<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Todos os livros enfatizavam a necessidade de ter um Mestre de carne e osso. Ent\u00e3o, procurei alguns autores de livros de Y\u00f4ga. Mas, ao expor-lhes minhas experi\u00eancias e estados de consci\u00eancia expandida conquistados com a pr\u00e1tica, todos, sem exce\u00e7\u00e3o, assumiam uma atitude de falsa humildade e diziam: \u201cOh! Quem sou eu para lhe ensinar? Eu n\u00e3o sei nada sobre Y\u00f4ga. N\u00e3o posso ser Mestre de ningu\u00e9m.\u201d At\u00e9 que um dia perdi a paci\u00eancia e questionei:<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">\u2013 Se voc\u00ea n\u00e3o sabe nada, como \u00e9 que ousou escrever um livro sobre Y\u00f4ga? Estava plagiando outros autores? Ou estava inventando? Acaso n\u00e3o sabe que, ao publicar isso, as pessoas leem de boa f\u00e9 e acreditam nas suas palavras, nos ensinamentos de quem \u201cn\u00e3o sabe nada\u201d?<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">N\u00e3o percebi na hora, mas esse meu desabafo feriu o orgulho disfar\u00e7ado daquele professor e ele viria a se tornar um arquiinimigo implac\u00e1vel pelo resto da vida. Como ele era um homem poderoso durante a ditadura, desencadeou em todos os adeptos da i\u00f3ga um h\u00e1bito de me excluir, perseguir\u00a0e difamar. Depois, um imitava o outro sem saber nem por que o fazia, mas agia assim porque &#8220;c\u00e3o mordido, todo o mundo quer morder&#8221;.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Continuei praticando sozinho. N\u00e3o obstante, alguns autores hindus alertam para os perigos de praticar s\u00f3. Notei logo um problema. Meu ego foi t\u00e3o esvaziado que come\u00e7o a ter dificuldades de conversar com as pessoas, pois n\u00e3o consigo mais conjugar os verbos sem a primeira pessoa do singular. Como dizer \u201ceu gosto de voc\u00ea\u201d, sem o <strong style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\"><em style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">eu<\/em><\/strong>? Ainda que n\u00e3o pronunciasse a palavra <strong style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\"><em style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">eu<\/em><\/strong>, esse sujeito estaria oculto na frase, mas estaria l\u00e1 \u2013 pois n\u00e3o h\u00e1 senten\u00e7a sem sujeito. Teria que usar constru\u00e7\u00f5es como \u201ceste ser gosta de voc\u00ea\u201d ou \u201ceste corpo est\u00e1 com fome\u201d. Mas a\u00ed, mesmo meus alunos de Y\u00f4ga considerariam muita excentricidade. Ent\u00e3o, fico calado. Afinal, n\u00e3o eram os pr\u00f3prios monges hindus que louvavam o sil\u00eancio? Alguns desses sw\u00e1mis recomendavam: \u201cQuem pratica Y\u00f4ga fala o m\u00ednimo poss\u00edvel para n\u00e3o gastar energia, e n\u00e3o sorri pelo mesmo motivo\u201d. S\u00f3 que outros livros criticam essa atitude, denunciando que o Y\u00f4ga nunca aconselhou tal coisa e que os monges afirmavam que sim por viver num monast\u00e9rio \u2013 que \u00e9 sabidamente lugar silencioso \u2013 e confundiam a norma mon\u00e1stica com o Y\u00f4ga em si. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Os que criticam a austeridade dizem que tal comportamento poderia conduzir a dist\u00farbios ps\u00edquicos, aliena\u00e7\u00e3o, perda de contato com a realidade. Estaria eu descambando para um caminho errado? S\u00f3 um Mestre de carne e osso poderia me orientar, mas n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m!<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Li, em v\u00e1rios livros, hist\u00f3rias de disc\u00edpulos que contestavam seus Mestres, que os desobedeciam ou tra\u00edam. Que ingratos! Tudo o que eu quero na vida \u00e9 ter um Mestre, e eles o t\u00eam e desprezam-no!<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Estou t\u00e3o s\u00f3 na senda! \u00c0s vezes, elevo o pensamento ao meu Mestre, pois ele deve existir e deve estar em algum lugar. Imploro-lhe que me apare\u00e7a e n\u00e3o consigo conter a emo\u00e7\u00e3o: as l\u00e1grimas lavam-me o rosto.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Come\u00e7am as f\u00e9rias escolares. Passo a praticar muito mais. Acordo \u00e0s 3 horas da manh\u00e3 para iniciar as pr\u00e1ticas \u00e0s 4 em ponto na praia deserta. Apesar do ver\u00e3o, a essa hora faz frio. Mas sou um brahm\u00e1ch\u00e1rya cumpridor. Controlo o frio, o calor, a fome, a sede, o sexo, a dor, tudo&#8230; Algo me diz que isto n\u00e3o est\u00e1 certo. Ir contra a natureza n\u00e3o pode ser saud\u00e1vel. No entanto, os livros que apoiam essa minha convic\u00e7\u00e3o s\u00e3o poucos. A maioria \u00e9 extremista. O que fazer? A quem recorrer? N\u00e3o quero ser indisciplinado, portanto, evito a coloca\u00e7\u00e3o: \u201ceu n\u00e3o concordo\u201d. Quem sou eu para n\u00e3o concordar? Devo recolher-me \u00e0 minha insignific\u00e2ncia de disc\u00edpulo e acatar tudo. Por\u00e9m, estou apenas seguindo livros. Se eu encontrasse um Mestre que me dissesse o que fazer, poderia assumir uma posi\u00e7\u00e3o definida. Se ele me dissesse que estou errado e que \u00e9 preciso negar a Natureza e exercer controle absoluto sobre minha sensorialidade eu prosseguiria nessa linha sem pestanejar. Ou, se ele ensinasse que a Natureza deve ser observada e que nosso comportamento deve ir a favor e n\u00e3o contra ela, eu pararia de me violentar como conseq\u00fc\u00eancia da leitura de livros de linha v\u00ead\u00e1nta-brahm\u00e1ch\u00e1rya. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">\u00c9 dif\u00edcil compreender que algu\u00e9m contando com a felicidade de ter um Mestre, possa desacatar sua orienta\u00e7\u00e3o. Deve ser ego! Muito ego! Quando o disc\u00edpulo est\u00e1 pronto o Mestre aparece. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o devo estar pronto. Quem sabe, eu iria questionar e desobedecer. Talvez, at\u00e9 trair? N\u00e3o! Trair, n\u00e3o!<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Passei a dedicar longas horas a um honesto exame de consci\u00eancia para saber se esse \u00e9 o problema. Para descobrir se o Mestre n\u00e3o aparece por eu n\u00e3o ter ainda a maturidade, a disciplina, a fidelidade que se precisa devotar ao Mentor.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Lembrei-me de um desenho que fiz quando era mais novo, de um rosto anci\u00e3o. Seria ele? Teria eu capturado sua imagem diretamente dos planos superiores? Por que, ent\u00e3o, n\u00e3o o vejo? Por que n\u00e3o o ou\u00e7o? Que droga!<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Desenvolvi algumas aptid\u00f5es, mas nenhuma delas me permite ver coisas ou ouvir os seres dos planos sutis. Afinal, as pessoas do ambiente que freq\u00fcento nas fraternidades espiritualistas, restaurantes vegetarianos e livrarias orientalistas, todos v\u00eam e ouvem uma profus\u00e3o de Mestres, entes e coisas. Aprendo muito com a intui\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, devo convir que ela n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o espetacular quanto a clarivid\u00eancia e a clariaudi\u00eancia. Contudo, semana passada (julho de 1962), conversando com um aluno meu de Y\u00f4ga que \u00e9 psiquiatra, tive a satisfa\u00e7\u00e3o de saber que n\u00e3o ver nem ouvir coisas me deixa mais perto da faixa da normalidade. J\u00e1 \u00e9 um al\u00edvio. Ent\u00e3o, me conformo. Mas s\u00f3 um pouco.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Escrevi um texto que leio todas as noites, no qual comprometo-me a respeitar, amar e acatar tudo o que vier do meu Mestre, se eu vier a ter um, mesmo as reprimendas e puni\u00e7\u00f5es, com a mesma humildade e carinho:<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: center;\"><strong style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"font-family: Times New Roman;\">\u201c<span style=\"font-variant: small-caps;\">Compromisso de fidelidade.<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 6pt 0cm 0pt; text-align: justify;\"><strong style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\"><span style=\"font-size: small; font-family: Times New Roman;\">Ao meu Mestre, prometo valorizar seus ensinamentos e cumpri-los sem questionamento. Prometo ser leal e fiel. Prometo ser grato por tudo, para todo o sempre. Mesmo que eu n\u00e3o possua lucidez ou evolu\u00e7\u00e3o suficientes para compreender, prometo acatar suas palavras e retribuir com lealdade, fidelidade e servi\u00e7o. Meu lema \u00e9 Aprender e Servir. Ainda que o Mestre me imponha as mais duras provas e as mais r\u00edspidas puni\u00e7\u00f5es, prometo aceitar a tudo com humildade. E, por piores que sejam as san\u00e7\u00f5es, meu amor pelo Mestre ser\u00e1 preservado e crescer\u00e1 a cada dia.\u201d<\/span><\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O outro lado do encontro com o Mestre \u00a0 Estou com 18 anos de idade. Leciono Y\u00f4ga desde os 16. Pratico Y\u00f4ga h\u00e1 5000 anos. \u201cNestas roupagens e nestas paragens\u201d n\u00e3o sei ao certo quando comecei. Foi gradual. Um dia, um mudr\u00e1. Noutro dia, um pr\u00e1n\u00e1y\u00e1ma. Noutro mais, um dhy\u00e1na. 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