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Depois, outras duas horas de vipar\u00edta asht\u00e1nga s\u00e1dhana, com padma s\u00edrsh\u00e1sana de uma hora. Ent\u00e3o senti um daqueles \u00e1pices de arrebatamento energ\u00e9tico, s\u00edndrome de excesso.<\/p>\n<p>Ao final de tantas horas com pr\u00e1ticas t\u00e3o fortes, acumulativamente com o que j\u00e1 vinha desenvolvendo durante anos, ocorreu o inevit\u00e1vel. Senti que algo estava acontecendo no per\u00edneo, como se um motor tivesse come\u00e7ado a funcionar l\u00e1 dentro. Uma vibra\u00e7\u00e3o muito forte tomou conta da regi\u00e3o cocc\u00edgea, com um ru\u00eddo surdo que se irradiava pelos nervos at\u00e9 o ouvido interno, onde produzia interessantes efeitos sonoros, cuja proced\u00eancia eu podia facilmente atribuir a este ou \u00e0quele plexo.<\/p>\n<p>Em seguida, um calor intenso come\u00e7ou a se movimentar em ondula\u00e7\u00f5es ascendentes. Conforme os mudr\u00e1s, bandhas, mantras e pr\u00e1n\u00e1y\u00e1mas, eu podia manobrar a temperatura e o ritmo das ondula\u00e7\u00f5es, fazendo ainda com que o fen\u00f4meno se detivesse mais tempo em um chakra ou passasse logo ao seguinte. A cada padma, o som interno cambiava, tornando-se mais complexo \u00e0 medida que subia na linha da coluna vertebral.<\/p>\n<p>De repente, perdi o controle do fen\u00f4meno, como se ele fosse um orgasmo que voc\u00ea consegue dominar at\u00e9 determinado ponto, mas depois explode. E foi mesmo uma explos\u00e3o de luz, felicidade e sabedoria. Tudo \u00e0 minha volta era luz. N\u00e3o envolvido em luz: simplesmente era luz. Uma luz de indescrit\u00edvel brilho e beleza, intens\u00edssima, mas que n\u00e3o ofuscava. A sensa\u00e7\u00e3o de felicidade extrapolava quaisquer par\u00e2metros. Era uma satisfa\u00e7\u00e3o absoluta, infind\u00e1vel. Um jorro de amor incondicionado brotou do fundo do meu ser, como se fosse um vulc\u00e3o. E a sabedoria que me invadiu durante tal experi\u00eancia, era c\u00f3smica, ilimitada. Num d\u00e9cimo de segundo compreendi tudo, instantaneamente. Compreendi a raz\u00e3o de ser de todas as coisas, a origem e o fim.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o quest\u00e3o de frisar: foram viv\u00eancias como essa que aniquilaram com o meu misticismo assimilado na juventude, perpetrado por leituras equivocadas. Aqueles que declaram ter-se tornado m\u00edsticos por causa, justamente, de experi\u00eancias semelhantes, na verdade tiveram apenas vislumbres t\u00e3o superficiais que acabaram gerando mist\u00e9rios ao inv\u00e9s de dissolv\u00ea-los. \u00c9 como a par\u00e1bola do homem que encontrou a verdade<a href=\"#_ftn3\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>No meu caso, dali resultaram os conceitos que me permitiram intensificar a sistematiza\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo. Naquele momento, tudo ficou claro. Todo o sistema come\u00e7ou a se ajustar sozinho, bastando para isso que fosse observado do alto e visto todo de uma s\u00f3 vez, como atrav\u00e9s de uma lente grande-angular. Era como observar de cima um labirinto. Bastava subir para uma dimens\u00e3o diferente daquela, na qual, nossas pobres mentes jazem agrilhoadas c\u00e1 em baixo. Tudo era t\u00e3o simples e t\u00e3o l\u00f3gico!<\/p>\n<p>Vontade de sair daquela experi\u00eancia, n\u00e3o tive nenhuma. Por\u00e9m, depois de um enorme per\u00edodo, parecendo-me muitas horas de regozijo e aprendizado, senti que havia se esgotado o tempo e era preciso retornar ao estado de consci\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o, no qual poderia conviver com os demais, trabalhar, alimentar meu corpo. Bastou cogitar em volver e imediatamente troquei de estado de consci\u00eancia. Foi algo muito interessante, sentir-me perder a dimens\u00e3o do infinito e cair, com a velocidade da luz, de todas as dire\u00e7\u00f5es \u00e0s quais havia me expandido! Passara a contrair minha consci\u00eancia para um pequeno centro, infinitesimal, blindado por uma mente e por um corpo, numa localiza\u00e7\u00e3o determinada dentro daquele Universo que era todo meu e que era todo eu, apenas um instante atr\u00e1s. Era o P\u00farusha c\u00f3smico, contraindo-se para tornar-se P\u00farusha individual.<\/p>\n<p>Voltar \u00e0 dimens\u00e3o hominal n\u00e3o foi desagrad\u00e1vel. A sensa\u00e7\u00e3o de plenitude e felicidade extasiante permanecia. O curioso foi que tinham-se passado n\u00e3o as tantas horas que supunha, mas tempo algum! O rel\u00f3gio de parede \u00e0 minha frente marcava a mesma hora. Portanto, para um observador externo, tudo ocorrera num lapso equivalente a um piscar de olhos e n\u00e3o teria chamado a aten\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A partir desse dia, foi como se eu tivesse descoberto o caminho da mina: n\u00e3o precisava mais dos mapas. Podia entrar e sair daquele estado sempre que quisesse, com facilidade.<\/p>\n<hr size=\"1\" \/><a href=\"#_ftnref\">[1]<\/a> Um dia, um fil\u00f3sofo estava conversando com o Diabo quando passou um s\u00e1bio com um saco cheio de verdades. Distra\u00eddo, como os s\u00e1bios em geral o s\u00e3o, n\u00e3o percebeu que ca\u00edra uma verdade. Um homem comum vinha passando e vendo aquela verdade ali ca\u00edda, aproximou-se cautelosamente, examinou-a como quem teme ser mordido por ela e, ap\u00f3s convencer-se de que n\u00e3o havia perigo, tomou-a em suas m\u00e3os, fitou-a longamente, extasiado e, ent\u00e3o, saiu correndo e gritando: &#8220;Encontrei a verdade! Encontrei a verdade!&#8221; Diante disso, o fil\u00f3sofo virou-se para o Diabo e disse: &#8220;Agora voc\u00ea se deu mal. Aquele homem achou a verdade e todos v\u00e3o saber que voc\u00ea n\u00e3o existe&#8230;&#8221; Mas, seguro de si, o Diabo retrucou: &#8220;Muito pelo contr\u00e1rio. Ele encontrou um peda\u00e7o da verdade. Com ela, vai fundar mais uma religi\u00e3o e eu vou ficar mais forte!&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certo dia, depois de um longo jejum, pus-me a praticar horas de japa com b\u00edj\u00e1 mantras, pr\u00e1n\u00e1y\u00e1mas ritmados e longos k\u00fambhakas, refor\u00e7ados com bandhas, kriy\u00e1s, \u00e1sanas e p\u00faj\u00e1s. Ap\u00f3s tr\u00eas horas desse s\u00e1dhana, pratiquei maithuna por mais tr\u00eas horas. Depois, outras duas horas de vipar\u00edta asht\u00e1nga s\u00e1dhana, com padma s\u00edrsh\u00e1sana de uma hora. 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